a outra parte de si

Foi no toque da caixa, tipo de tambor de samba, que ele se tornou participante ativo em seu novo universo tropical quando cravou os pés no Rio de Janeiro e fez da cidade seu novo lar. A ressonância do som das suas baquetas no bloco de carnaval carioca de Santa Teresa, ‘Me Enterra na Quarta’, tiveram o efeito oposto do seu significado no coração desse ítalo-brasileiro: fez com que ele se sentisse, de fato, vivo. Intrigado pela metade de seus genes tupiniquins, Stefano aterrizou no Brasil para encontrar a parte de si que não conhecia tão bem. Seu pai, italiano, se aventurara por terras brasileiras onde encontrou o amor e a levou consigo para a grande bota europeia. Filho de mãe parintinense, torcedora do Garantido, Stefano assistiu, quando jovem, ao festival folclórico como um observador do mundo de sua genitora que aplaudia o boi identificado pela cor branca e coração vermelho. No entanto, era o rebento um mero turista, um espectador passivo, na festa popular amazonense. O mergulho na cultura fluminense, em sua nova jornada, aflorou das veias de Stefano uma paixão ímpar. Nasceu uma formação não somente carnavalesco-musical, mas um vínculo com os demais. Sentiu-se rodeado de amigos verdadeiros, abraçado pela comunidade. Ingratamente, uma tuberculose mostrou outro lado da cidade nem tão maravilhosa assim. A doença o conduziu para um momento obscuro, trevas em sua jornada de descobertas. O tratamento médico áspero de um sistema de saúde público pífio fez com que sua decepção o levasse a mudar de ares, buscando outra de suas essências, uma dentre as quais procurava quando atravessou o Oceano Atlântico.

Em São Paulo encontrou uma peça chave do seu quebra-cabeça interior: o sentido do seu trabalho. Não somente o ofício como ganha pão, mas um significado maior para sua existência. Psicólogo clínico, Stefano se interessa pela mente humana e, principalmente, por pessoas. Em um trabalho voluntário em um centro cultural milanês, ele ajudava árabes, nigerianos, e quaisquer imigrantes e refugiados que lá atracavam a aprender sua língua nativa. Na selva de pedras, Stefano colocou em prática a experiência adquirida em lecionar italiano no seu país de origem. No boca a boca, real e virtual, seus alunos se multiplicaram e solidificou sua essência professoral. Stefano vai assim criando bases para a nova realidade que ergue. O futuro traz na psicanálise outra vertente, outro caminho entre os já percorridos; uma imersão em seus interesses: o que constrói um ser humano.

Nascido em Milão, ele trouxe da Itália o amor pelo rubro-negro. Stefano guarda consigo uma camisa de futebol do Milan, presente de seus amigos italianos. Um lembrete de sua fração europeia que portou para o Brasil. Nela há estampado o nome ‘Lapadula’. Apesar de não se tratar de um jogador habilidoso, ele explica ter apreço por esse atacante por sua história de vida, chegando na série A tardiamente e usando da garra e vontade de ganhar como seus trunfos no jogo. O afeto vem também do fato desse jogador ser filho de imigrantes latino-americanos. Stefano tenta encontrar um time brasileiro equivalente para torcer, reviver o que o move no calcio italiano. Se enveredou pelo Palmeiras, mas, antes mesmo de se apaixonar pelo Palestra Itália, veio uma grande desilusão. Felipe Melo fazendo sinal de ‘arminha’ e a torcida do novo presidente eleito Jair Bolsonaro o brocharam. A busca continua. De toda forma, o correspondente das vivências italianas de Stefano talvez não seja possível ser encontrado no Brasil, mas sim novas paixões que desabrocham na sua experiência local. O ítalo-brasileiro veio buscar algo de sua origem em uma estada temporária, tempo suficiente para tal investigação de sua matriz parcial. O plano inicial de permanecer por alguns meses no hemisfério sul, porém, se transformou em relocação permanente. No Brasil, assim como seu pai, encontrou o amor. Stefano fincou os pés e criou raízes nas terras sul-americanas, explorando àquela parte de si que agora já não é tão desconhecida assim.