senhora de seu próprio destino

A novela brasileira Senhora do Destino trouxe uma luz no fim do túnel para a vida da moçambicana Lara. Não pela protagonista que se muda do Nordeste para o Rio de Janeiro, procurando uma vida melhor, apesar de ser também uma motivação plausível para justificar sua jornada. A inspiração, na verdade, veio por conta do casal de lésbicas que atravessava os televisores das casas do sudeste do Continente Africano. Pela primeira vez em sua história, Lara se viu representada em um meio de comunicação proeminente. Era um certo alívio que seus conterrâneos em Maputo, capital de Moçambique, pudessem se informar, descobrir que havia outras pessoas no mundo como ela. Sua condição não era algo de outro universo, mas uma concepção de vida possível.

A exportação cultural brasileira, por ter a mesma língua pátria, aproxima os países. A produção global trazia a noção do que ocorria do outro lado do Atlântico. Para Lara, o Brasil se tornou uma esperança de lugar onde pudesse ser ela mesma. O plano intensificou-se quando a maputense percebeu sentir-se no lugar errado com as pessoas erradas. O abandono do pai, por não aceitar sua filha como ela era, foi o estopim de um conflito social. Com o fato de a novela retratar duas mulheres que se relacionavam amorosamente, Lara entendeu que no Brasil, ao menos, se falava sobre o assunto. Em seu país de origem, o assunto era tabu, mantido em silêncio.

A quietude só era quebrada ao som de insultos que ouvia na rua, como ‘fufas’, gritados por conhecidos quando passava em público com outra mulher ao lado. Ou pela forma arbitrária como fora tratada pela polícia em uma interferência parcial. Um julgamento verbal de um policial de como se vestia e portava rendeu um mês na prisão, o que ela considera poder ter sido resolvido com uma multa por infração de trânsito — o verdadeiro delito em questão. As restrições à sua forma de ser apagavam seu sorriso.  

O casal Bárbara e Eleonora, da ficção televisiva, provia um sonho, o de ir para tal país onde Lara pudesse também viver abertamente e com dignidade. Sua missão crescia, mas mantinha-se secreta. A aspiração passou a ser plano, e o plano se concretizou em 2013. Ela construiu condições para lançar-se a um novo rumo. Trabalhou e juntou a quantia necessária para colocar o projeto em prática. Seria ela a personagem de seu próprio roteiro, traçando um destino diferente daquele estabelecido na África.

Desembarcou em Guarulhos como turista que Lara sabia que não era. Pediu para o taxista que a levasse para um hotel no centro da capital. O condutor, perguntando sobre suas origens, percebeu para onde deveria guiá-la. Ele deixou Lara em um hotel no Largo do Paissandu e indicou onde encontrar outros africanos em condições semelhantes, que poderiam ajudá-la. Após acomodar-se, a moçambicana marchou para a Galeria Presidente, mais chamada pelos frequentadores de Galeria dos Africanos, uma espécie de Torre de Babel, onde é ouvida pelos corredores uma nuvem de línguas de todos os cantos de seu continente de origem. Um nativo de Guiné Bissau a indicou a Cáritas, organização não governamental, que acolhe refugiados e explicou como proceder.

A estrangeira, em um mundo mais familiar em que nascera, preencheu as fichas para permanecer em sua nova nação. Encontrou acolhimento na Missão Paz, organização filantrópica que oferece moradia provisória a refugiados recém-chegados. Lá podia dormir, mas os dias eram passados na rua, em que ela logo arrumou trabalho em um hotel. Conseguiu alugar seu próprio quarto onde sentia frio dormindo no chão. Ela sabia, porém, que esse era um percalço inicial, que dias melhores viriam. Dois anos depois de sua chegada a São Paulo, foi convocada pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) para uma entrevista-chave. Pôde falar o porquê de seu refúgio: sua orientação sexual. Com sua história às claras, conseguiu tirar sua carteira de identidade, o Registro Nacional de Estrangeiros (RNE). Apesar da fácil adaptação na maior cidade da América Latina, Lara carrega Moçambique consigo. Faz caril de amendoim, receita da avó, que lembra sua infância no quintal da mãe de sua mãe. Lá era livre, brincava com os primos de jogar futebol ou com carrinhos de ferro. Isso antes de encarar a escola, sentir-se diferente, ser olhada como um ser de outro planeta. O engajamento com a sua própria vida trouxe a vontade de expandir seu conhecimento para além de seu interior. Em saraus que faz parte em São Paulo, Lara recita poemas de Mia Couto, renomado escritor moçambicano. Ajuda também na formação de professores, no que diz respeito à diversidade, inclusão e choque cultural. Com sua voz, transforma a vida de outras pessoas para que se sintam confortáveis em sua própria pele e abraçadas pela sociedade.