de frente consigo mesma

Quando criança, Carla se interessava em pegar panfletos de empreendimentos mobiliários nas ruas de São Paulo para examinar as plantas dos apartamentos neles impressas. Como gostava de desenhar, reproduzia aqueles projetos residenciais que tanto a atraiam. Os modelos, porém, não preenchiam suas aspirações. Queria ela criar as próprias plantas habitacionais. Com um primo de seu pai, aprendeu a fazer escala e aplicá-las em suas ilustrações. Carla então planejava os cômodos com as equivalências devidamente ajustadas. A menina se entretia concebendo moradias imaginárias, mas bem traçadas como uma pequena arquiteta.

Com seu lado artístico aflorado e gosto pelas plantas arquitetônicas, Carla propôs para os pais fazer um curso técnico em design de interiores quando ainda adolescente. Passou na concorrida prova de admissão e se engajou nas aulas para aprender tudo sobre aquele campo que já fazia parte de seu universo desde cedo. Em certo momento da vida, ainda jovem e precisando de dinheiro, começou a vender azulejos pintados por ela em um viaduto em que havia uma feirinha de artesanato e movimento de pessoas. Um amigo, contudo, a viu sentada confortavelmente em sua canga naquele local e achou que ela tinha era virado moradora de rua e passava dificuldades.

O rumor se espalhou dentre outros conhecidos que se mobilizaram com a situação tecida de Carla e arrumaram uma oportunidade de trabalho para ela. No entanto, para a vaga seria necessário conhecimento em um software que ela não dominava. Aprendeu o básico para o teste e conseguiu impressionar seus superiores ao planejar a cozinha solicitada nas orientações. Construiu toda uma carreira na área de design de interiores através dessa chance. Os anos de experiência projetando espaços foram se acumulando ao longo de mais de uma década.

No âmbito pessoal, embarcou em uma nova jornada através da Ayahuasca. Na primeira experiência, sentiu seu corpo se fundir com o chão como se não houvesse divisão entre Carla e a matéria. Não era só a vida humana que existia, mas tudo ao redor também pulsava. As vivências através do chá abriam espaço para encontros com algo prazeroso e clareza de ideias até que um dia se deparou com uma sessão mais sombria. Não somente de flores se constituía a vida e seus processos internos precisavam emergir.

Carla se deparou com o medo, como se uma força da natureza lhe desse um tapa na cara. Enquanto as experiências passadas haviam sido afáveis, esta a colocaria de frente consigo mesma. A pergunta que vibrava era se ela estaria se olhando. Começou então a chorar e processar o que ocorria. Carla se deu conta de que havia tido namorados e relacionamentos em que se dedicava em demasia a ajudar as pessoas próximas. Mas faltava um cuidado para com ela mesma e também se abrir para receber o que não fazia parte de sua vida até o momento.

Pouco tempo depois, em uma saída para a noite, Carla se deparou flertando com uma pessoa que dançava por perto. O interesse foi aflorando de acordo com que o tempo passava. Após alguma insistência por parte da Carla, as duas acabaram ficando, mas não trocaram contato e se desencontraram durante a noite. Carla até tentou procurar pela mulher que se encantara fuçando pela internet, mas só sabia o seu apelido e não foi possível localizar qualquer informação. Por sorte do destino, Tita também buscou por Carla e a encontrou nas redes sociais para a satisfação de ambas.

As duas se encontraram novamente e o clima de romance continuou fluindo bem até que Tita revelou que partiria para Rússia para uma viagem de trabalho durante a Copa do Mundo que lá acontecia. A separação física rendeu um contato virtual intenso. Como Carla não tinha antes tido um relacionamento com uma mulher, ficou um tanto apreensiva ao planejar encontros futuros que envolveriam algo a mais. Seu receio, todavia, logo se dissipou ao se entregar para aquela nova relação. Carla recebia um modo de carinho e atenção inéditos em sua vida.

Com logística dificultada pela distância entre as residências de cada uma já que Tita morava em Barueri, partiram para uma jornada conjunta. Carla foi morar com Tita com seus dois gatos que se somaram aos dois da amada. Arrumou um trabalho em Alphaville e sua vida passou a ser por lá. No entanto, a demanda no trabalho começou a exigir cada vez mais do tempo de Carla. O excesso de projetos fez com que ela se recordasse das palavras do avô que afirmava que as pessoas deveriam trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Carla pensou em sua saúde física e mental para se libertar do trabalho fixo. A vida vivida em piloto automático recebeu um respiro.

Perguntou-se qual estilo de vida gostaria de ter daquele momento adiante. Ao invés de colecionar coisas, se deixaria guiar pela vivência. Livre para atuar por conta própria, Carla se reconstrói, se dedicando, além de aos projetos de design de interiores, a outras áreas de interesse. Com seu amor pela cozinha, passou a vender tortas variadas. Pretende também preencher seu tempo com a cerâmica que a fascina. O Taekwondo ficou de lado por anos, mas Carla gostaria de retomar essa atividade já que falta pouco para que se torne faixa preta. Ao desacelerar, Carla se abre para novas oportunidades ao mesmo tempo em que inspira as pessoas ao seu redor a viver com coragem e autenticidade.

o despertar dos versos

As amiguinhas de Valentina tinham diários em que escreviam seus segredos. A pequena Valentina não entendia o propósito daquelas páginas privadas. Não pensava ela em qualquer confidência que poderia cravar naquelas folhas em branco. Em um impulso que veio de dentro de seu ser, a menina escreveu os versos que transbordavam de si. As palavras então encontraram uma forma que fazia sentido para ela se expressar. A poesia inaugural sobre o amor impressionou sua mãe e os adultos ao redor. A escrita passou, desde então, a fazer parte de sua vida, acompanhando-a por diversas fases.

Os poemas, no entanto, cessaram por cinco anos na vida adulta. A escassez dos versos coincidia com um trabalho que demandava em demasia enquanto oferecia pouco em retorno em termos de satisfação pessoal. Valentina contou com a pressão principalmente da mãe para a escolha da carreira em Direito no vestibular. Os pais, como funcionários públicos, davam valor à estabilidade de tais cargos e influenciaram a filha em sua escolha profissional. A jovem vestibulanda pensou em tentar jornalismo pela afinidade com a escrita, mas a influência familiar falou mais alto.

Valentina se fez uma jovem bastante determinada. Mesmo não se identificando totalmente com a profissão, se dedicava com afinco. Logo depois de formada, passou a trabalhar no escritório que atua até os dias de hoje. Obstinada, ela executa suas tarefas com empenho e foco. Trabalha com Direito tributário e foi, com o tempo, entendendo que aquele não seria o ambiente adequado para se realizar profissionalmente. Considera o mundo corporativo do qual faz parte um tanto agressivo. Em um momento de mergulho no trabalho para dar conta dos resultados esperados, os poemas sumiram de sua vida.

Os versos retornaram em uma caminhada. Voltaram a emergir de sua mente. A sequência de palavras que se formava expressava aquele lugar em que Valentina se sentia: como se faltasse um pedaço de quem realmente é. O poema discorria sobre tomar passos que não eram os dela e revelava uma saudade que sentia de si. Ela expôs a composição na rede social e a repercussão foi grande entre os próximos. Sem sentido também estava o relacionamento de anos que se tornou sem muita vida. Algo precisava mudar para que Valentina pudesse desabrochar. A crise existencial deu uma guinada em sua vontade de se encontrar. Iniciou um novo namoro e passaram a dividir o mesmo teto durante a pandemia do coronavírus. O trabalho remoto ajudou Valentina a desacelerar e se engajar com outras frequências que vibram dentro dela.

Um tempo antes durante um período de incertezas, Valentina passou a fazer terapia. Chegou perto de uma síndrome de Burnout com o excesso de trabalho e seu esgotamento mental. Compreendeu melhor o lugar em que estava e no qual se colocava. Na empresa, conseguiu criar limites para sua atuação. Não se debruçaria mais em intermináveis horas extras para render mais. Mesmo tendo uma personalidade forte no lado pessoal, no mundo corporativo se deixava levar pelas expectativas de seus superiores. A atenção à rotina fez com que as demandas sobre si se atenuassem e conseguisse executar o seu trabalho sem se exaurir.

A questão de por qual caminho seguir passou a martelar na cabeça de Valentina. Mesmo o ritmo de trabalho mais tranquilo não se faz suficiente para que se sentisse realizada. Ela busca algo que a preencha e que se alinhe com suas convicções. A mudança da casa dos pais para um apartamento deu uma guinada em sua vida. Um espaço preenchido de plantas traz um ambiente que a agrada. Valentina pôde se conectar com ela mesma vivendo de forma independente. Procura entender melhor quais alternativas seguir para desenvolver-se em uma área que acredite.

Aderiu a uma mentoria de transição de carreira. Tem vontade de colaborar para a humanização do meio corporativo. Valentina observa que a cultura das empresas reflete a cultura da sociedade. Pensa trazer a sua experiência em um processo de evolução de como as empresas funcionam, reverberando no conceito de capitalismo consciente. Uma das ideias é incorporar uma parte artística à dinâmica empresarial para ajudar os funcionários a atuarem e se expressarem de forma mais plena.

Em meio às mudanças, o novo relacionamento terminou repentinamente o que traz outro ponto de reflexão para sua vida. Encontra-se redescobrindo suas potencialidades e debruçando-se nas novas oportunidades que surgem. Tem vontade de editar uma coletânea de poemas e publicá-los na forma de livro. Quando escreve em versos, se sente ela mesma. As plantas que cultiva em casa também motivam um projeto intitulado Mudas Que Mudam. Nessa proposta, Valentina guiaria as pessoas a encontrar e cuidar de espécies que as ajudariam a se desenvolver. Com múltiplos caminhos possíveis, o momento agora é de reflexão. Valentina embarca para um retiro em meio à natureza para ouvir seu coração antes de encabeçar uma nova etapa de vida e desdobramentos na sua existência.

de geração em geração

A avó de Simone, Antonieta, com apenas 13 anos, cruzou o Oceano Atlântico, em 1915, em busca de uma vida melhor no Brasil. Provinda da aldeia do Vilar, em Portugal, partiu a menina para uma jornada de esperança de um futuro mais promissor no continente de destino. Uma família abastada portuguesa contratara os seus serviços como copeira no Rio de Janeiro. Muito dedicada, ela foi crescendo na carreira de serviços domésticos que prestava. De copeira passou a ser governanta e de governanta tornou-se dama de companhia da patroa. Esta fora educada em Paris e ensinava a etiqueta francesa para a sua funcionária.

Antonieta estimava sua vida independente e de aprendizado no trabalho, oportunidade pela qual possibilitou com que andasse com as próprias pernas. Casou tarde, para a época, com um primo de terceiro grau com quem tinha uma próxima amizade. A filosofia de relação, para Antonieta, era a de apreciar a companhia do marido desde que ele nunca levantasse a mão para ela. Com personalidade forte, essa jovem portuguesa se estabeleceu como a grande matriarca da família que formou. Teve o casal três filhos, um menino e duas meninas. A caçula delas veio a tornar-se mãe de Simone e cresceu com muita esperança de avançar nos estudos.

O pai, porém, cortou as asas da menina após ela concluir o primário. O foco deveria ser no corte e costura assim como faziam as outras moças naqueles tempos. Quando adulta, teve também três filhos, assim como a sua genitora: um menino; uma menina do meio, a Simone; e outro mais novo. Houve também a perda de um bebê, no interim, o que motivou as pessoas ao redor a responsabilizar as árduas condições de vida para a interrupção da gravidez. Além das dificuldades financeiras, o marido registrara um dos filhos com um nome diferente do combinado e as desavenças levaram a uma agressão física.

A mãe de Simone havia prometido para si mesma que, caso qualquer brutalidade acontecesse, seria esta em dose única. Não se permitiria manter-se em uma relação violenta. Com a difícil situação financeira e matrimonial, ela se mudou para a casa da mãe para melhores cuidados. O marido que não se dava bem com a família da esposa, não pode acompanhá-los. A mãe, agora praticamente solo, teve que se virar para financiar a criação dos filhos. Costurava para fora, mas com empenho nos estudos como autodidata que era, conseguiu passar em um concurso público para trabalhar no INSS. E mais adiante completaria a renda com outros dois trabalhos como recepcionista em consultórios médicos.

Simone, como única filha entre dois meninos, ajudava a avó a manter a casa em ordem. Enquanto a matriarca cozinhava para todos, Simone se encarregava da limpeza. Mesmo ainda pequena, arrumaram um banquinho para que ela alcançasse a pia para lavar a louça. Sem poder aquisitivo, os pratos na mesa variavam pouco. As tripas à moda do porco, uma espécie de dobradinha com feijão não agradavam o paladar de Simone que era, de toda forma, obrigada a comer o que se servia. O restante do bacalhau das ocasiões especiais como na Páscoa e no Natal, se transformava em açorda, misturado com pão.

Ao contrário de sua mãe que fora impedida de continuar os estudos pelo pai autoritário, Simone permaneceu na escola com afinco, rompendo a sina das gerações passadas. O pai, pelo contrário, estimulou Simone também a aprender inglês, o que abriu frentes de oportunidade em sua carreira. Inspirada em um professor da escola, decidiu prestar psicologia no vestibular. Já se preparando para a prova, planejou seguir pelos estudos clássicos. No entanto, se deparou com o latim que impôs dificuldades. A professora somente a passaria de ano caso ela se transferisse para o científico já que as condições não iriam melhorar com a adição de grego no currículo no ano seguinte.

Para a sorte de Simone, quando prestou vestibular, psicologia mudou de humanas para biológicas o que possibilitou a sua entrada na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cursando a faculdade, logo começou com os estágios. Já tinha convicção que gostaria de seguir na área de psicologia empresarial e organizacional. Foi aprendendo por onde passava. Depois de formada, também trabalhou em grandes empresas atuando em treinamento, recrutamento e seleção até que decidiu partir para uma destemida iniciativa profissional. Resolveu se tornar consultora independente e conquistar uma cartela de clientes. O negócio prosperou até uma crise econômica nos anos 90 brecar seus planos. Com seus investimentos certeiros, conseguiu sobreviver até retraçar os objetivos.

Durante sua vida universitária, casou e engravidou. A filha nasceu na mesma época de sua formatura em uma cesárea de emergência. Pós-maturo, o bebê continuava tranquilo em seu ventre, sem movimentos para vir ao mundo. Mudou de médico na última hora e teve a filha em um hospital público no qual o obstetra indicado por seu irmão estava de plantão. O segundo filho veio pouco tempo depois e já com a experiência de que Simone não entraria em trabalho de parto, a cesárea já foi programada com antecedência. Separou-se e resolveu morar em São Paulo para uma nova jornada de vida. A carreira alavancou e criou alicerces para levar os filhos para a capital paulista.

Simone não considera ter sido uma mãe tão presente tendo que conciliar a criação dos filhos com o trabalho excessivo. Um dos momentos marcantes, porém, foi uma viagem com o intuito de abrir os olhos das crias para a vida para além dos shoppings e praias que estavam acostumados. Programou uma viagem de carro para Natal e partiram os três. Percorrendo áreas carentes do Brasil, se depararam com famílias passando fome na beira da estrada. Os filhos ofereciam a comida que tinham no veículo para as pessoas necessitadas pelo caminho. A aventura contou até com um atropelamento de um cachorro que subitamente apareceu na estrada e uma parada pela polícia na volta. Ficou guardada a experiência de passar para os filhos um pouco do que Simone guarda dentro de si. A vida das mulheres da família vai assim se transformando de geração em geração.

cientista da vida

A facilidade na área de exatas guiou Mariana para uma carreira acadêmica como pesquisadora e docente. Da graduação em engenharia química pulou diretamente para o doutorado em mecânica. Aplicou-se no desenvolvimento de novos materiais para reparos de defeitos ósseos. Com a trajetória profissional a mil, veio o stress ocasionado pela pressão por alta produção de artigos científicos e performance no cargo de professora universitária. A posição pesava e decorria na direção contrária de uma filosofia de vida mais equilibrada em que acreditava. Esgotada, Mariana considerou pedir sua exoneração. Evitando uma decisão permanente, porém, repensou e chegou a um meio termo – uma licença não remunerada pelo período de um ano para reconsiderar os rumos de sua vida.

Pouco tempo antes, Mariana recebeu em seus braços o primeiro bebê que segurou em sua existência – sua filha. Sem contato anterior com crianças pequenas, a vinda ao mundo de sua progênita trouxe um novo propósito. Já na gravidez, as concepções do parto mudaram para a acadêmica. No início, foi conduzida pela obstetria convencional que demonstrava propensão à cesárea. Pesquisando sobre o tema, o filme O Renascimento do Parto mudou sua forma de enxergar como o bebê havia de deixar seu útero. Uma obstetra humanizada a acompanhou a partir de então. Mariana foi aconselhada a lidar com seus medos durante o processo de gravidez para ter um parto tranquilo.

Havia o medo da dor e também da anestesia, já que não lida bem com injeções. Na única que tomou na vida, desmaiou. Terapia, yoga e meditação tornaram-se formas de apaziguar a ansiedade e trazer autoconhecimento. Com toda essa preparação, a vinda de Júlia ao mundo foi serena. Após algumas contrações em casa, deslocaram-se para o hospital; não demorou muito para a pequena apresentar-se para os pais e passar as primeiras três horas de vida no colo da mãe. Dar a luz a um serzinho como esse mudou a concepção de vida de Mariana. O parto desencadeou uma série de mudanças. O ritmo alucinado do trabalho deu espaço a questionamentos sobre como balancear os diversos aspectos da vida pessoal e profissional.

Natural de São José dos Campos, Mariana vê-se, no entanto, como campineira, já que a família migrou para Campinas quando ela era ainda criança. Cresceu acompanhando seu pai, físico, ao laboratório da universidade. Astuto, ele construía seus próprios equipamentos para pesquisa e alimentava a curiosidade da menina. Ao ser indagado sobre qualquer assunto, ao invés de responder, ele instigava sua filha a procurar as respostas de suas próprias perguntas. Assim já nascia uma pequena cientista dentro dela. A propensão empírica e científica durante a infância norteou seu futuro desenvolvimento profissional.

A crise que se instaurou com o excesso de trabalho e a recém-experiência materna direcionou sua reconstrução. A licença veio em boa hora. Nesse intervalo, pôde desenvolver-se em outra área, a da psicologia positiva. O marido também passou por uma crise semelhante com o esgotamento profissional, chegando à síndrome de burnout, o que o levou a pesquisar sobre inteligência emocional. Através da análise da situação de ambos, criaram uma empresa de desenvolvimento humano.

Com o fim do ano sabático, Mariana teve que encarar o retorno à universidade, mas estabelecendo um novo paradigma. Para ela, os conhecimentos refletidos de sua experiência pessoal poderiam ter um impacto maior se alcançassem os estudantes de engenharia. Introduziu sua proposta de inserir treinamento em habilidades socioemocionais na grade. Houve resistência do núcleo, principalmente da ala mais conservadora. No entanto, com perseverança, Mariana foi implementando seu plano de ação. Enquanto ela vai rompendo as convenções no ensino, os alunos apreciam competências de administração da vida que não aprenderiam em aulas de cálculo.

Os sonhos de qualidade de vida perduram. Mariana teve a oportunidade de morar em Barcelona, devido ao doutorado sanduíche, por seis meses juntamente com o marido que a acompanhou. Os dois se apaixonaram pela cidade. Voltaram como turistas e conheceram ainda mais a cultura local. Com o mar ao redor, a cidade catalã os acolhe. Apesar de grande, traz um ar de tranquilidade. Há a vontade de reviver esse estilo de vida espanhol. No entanto, do mesmo modo que Mariana pode deixar para trás seus títulos acadêmicos, ela também consegue adaptar-se a novos planos. Mais do que a aspiração de uma vida futura imaginada, situa-se a consciência do bem-estar do presente momento.

multiplicidade de ser

Quando sua filha, Sofia, nasceu algo mudou em Ivanez. Durante a gravidez não se sentia ainda pai. A imagem mental da ocasião fica guardada como um momento único que não poderia ser refeito como outras fotografias de viável reprodução. O momento de vinda ao mundo do pequeno ser alterou sua percepção. O contato até então era distante quando ainda no útero. Foi como se ele e ela estivessem desplugados e, na hora do encontro físico entre os dois, os fios relacionais se conectassem. Hoje com seis anos, a menina, um tanto independente e de personalidade forte, revela uma mistura entre características dele e da esposa.

Nascido em Currais Novos, no interior do Rio Grande do Norte, Ivanez desfrutou de uma infância venturosa. No bairro em que morava, jogava futebol e brincava de pega-pega livremente. A proximidade com os demais moradores trazia o aconchego de uma cidade pequena. No entanto, o elo com sua terra natal se rompeu com a mudança da família, por conta do trabalho do pai, para o Rio de Janeiro. A vida na capital fluminense gerou desafios sinuosos. Aos 15 anos, o adolescente potiguar não se adaptava à falta de liberdade imposta pela rotina carioca. O ambiente se revelava hostil como na escola em que convivia com alunos envolvidos com o tráfico de drogas. O contato com os habitantes da Cidade Maravilhosa também se apresentava adverso. Os locais não eram tão abertos quanto Ivanez esperava, mas ele se questiona também se não era ele que se fechava para as novas amizades.

Sua jornada de vida contou com diversas mudanças pelo território brasileiro. Junto com o pai, mãe e duas irmãs, migrou do Rio de Janeiro para Salvador e de Salvador para Fortaleza. No interior de Ivanez crescia uma vontade de colocar para fora o que se passava dentro de si. Ele tinha dificuldade em se expressar quando jovem e muitos conteúdos não ditos permaneciam guardados e em ebulição. A relação com o pai até a juventude foi um tanto distante. A ponte entre os dois se estreitou por um movimento de aproximação de Ivanez para com seu genitor. Da mãe herdou a praticidade e a disciplina.

As ideias propulsionadas por suas experiências de vida alimentaram o sonho de escrever um livro, mesmo a escrita sendo algo distante em sua vida. Com a impressão sequencial de letras, Ivanez acredita que, ao contrário das palavras ditas, as cravadas no papel perduram. Decidiu executar o manuscrito, com o lançamento do mesmo em 2019. Nele, faz uma analogia entre a construção de uma casa e o desenvolvimento pessoal que vai desde as fundações até a mobília, a última fase da feitura de si.

Em sua mente, flutua um mar de ideias; seu corpo produz força de ação para realizar o que atravessa seus neurônios. Profissionalmente já tocou restaurante, teve empresa de tecnologia, de desenvolvimento de aplicativos e até de realização de casamentos. Observador, Ivanez encontra ao seu redor motivos para melhorar a eficiência de qualquer empreendimento. Recentemente, passou a usar sua habilidade para prover mentorias de negócios.

A efervescência das abstrações que ocorre em seu cérebro, porém, não é fácil de lidar. Ivanez porta uma multiplicidade que, diversas vezes, o atrapalha. Há flechas mentais que apontam em diversas direções, muitas delas, contrárias. Na ânsia de realizar tudo o que pensa, já se encontrou no vácuo. Com o excesso de propósito ocorre a perda de foco ou, inclusive, uma paralisação generalizada. Em um momento de angústia e crise no relacionamento bem como na vida profissional, Ivanez teve um colapso de suas funções. Deparou-se com o vazio. Nessa ocasião, mudou-se para a praia, onde, ao longo de seis meses, processou o que ocorria em sua vida.

Após o hiato, Ivanez reatou com a esposa e recomeçou suas empreitadas. Voltaram com mais cumplicidade, entendendo melhor a natureza de cada um, e com uma vontade maior de ajudar o outro a realizar os seus sonhos. Formou-se também um compromisso interior com o que acredita, o desejo de trabalhar naquilo que é importante para ele. Colocou como meta arrumar os dentes para um sorriso mais tranquilo e também focou em perder peso do seu corpo que acumulava 128 quilos por conta de hábitos não saudáveis. Objetivos esses que foram cumpridos em um trato que fez consigo mesmo. Ivanez enfrenta o medo de parar, de se conformar e não evoluir mais. Atualmente, ele planta sementes para o futuro, mesmo outros não enxergando suas intenções. A sua germinação interior o guia com fugacidade.

escolhas que te escolhem

Uma experiência incomum era aquela de caminhar junto com outras nove pessoas sem trocar uma só palavra. Por cinco horas, o grupo compartilhou a sensação de explorar o centro de São Paulo em silêncio. Em um restaurante macrobiótico, a refeição compartilhada auferia um sentimento destoante da tática padrão de ocupar o recinto com sons emitidos pelas cordas vocais dos presentes. A paz tomava o espaço que muitas vezes é ocupado por conversas que não agregam. Essa vivência abriu a mente de Luciana para novas possibilidades. O mergulho interior desse processo meditativo deslocara névoas que revoavam dentro dela para dar lugar a algum tipo de revelação. Um sussurro íntimo reverberava na psique de Luciana para que se lembrasse do que sentiu naqueles momentos e não somente fosse uma experiência em vão.

Escrever sempre foi uma atividade espontânea que essa mulher crescida em Formiga, interior de Minas Gerais, desenvolveu ao longo dos anos. Em seus cadernos, Luciana observa seus sentimentos; a angústia se correlaciona positivamente com o número de linhas escritas. As turbulências e questionamentos da vida brotam das páginas de seu confidente inanimado de quando em quando. Em períodos em que vive no piloto automático, a caneta deixa de marcar o papel por um determinado período. A reflexão que desenvolve consigo mesma traz a essência do que carrega. Desde pequena, Luciana apresentava-se introspectiva; encontrava serenidade na leitura. Como caçula, tinha contato próximo com a mãe que agia como sua protetora. Difícil exprimir se a mãe influenciou seu modo de ser ao estimular uma vida mais caseira ou se a natureza intrínseca da menina contemplativa aflorava em sua personalidade. Do outro lado da moeda, havia os conselhos do pai que incentivava uma vida independente.

Luciana optou por cursar administração, a possibilidade mais rápida para começar uma universidade em Belo Horizonte. Outras escolhas seriam em medicina, arquitetura ou jornalismo. Encontrou no mundo das finanças a forma de tornar-se autossuficiente, seguindo os critérios do pai que adotou para si. Primeiro, foi da pacata cidade do interior de Minas Gerais para a capital do estado; deu então outro salto, mudando-se para o centro financeiro do país, São Paulo. A carreira se consolidava na metrópole e viu-se em um namoro de anos com seu melhor amigo. O que poderia parecer um triunfo de vida estável bem sucedida não acalentava sua alma; faltava algo que não se podia ver. Luciana sentia que estava deixando de viver outras vidas possíveis. A experiência no centro de São Paulo foi além do processo meditativo vivido, o grupo explorou também questionamentos sobre o universo e o sentido da existência de cada um no planeta Terra. Lá, uma recém-amiga a inspirou a romper com o conforto da vida segura para imergir-se em novas aventuras.

Na busca por estímulos alternativos aos já experienciados, Luciana se abriu com seu parceiro que precisava mudar sua vida em todos os aspectos. Os motivos da inquietude incluíam a vida não vivida ou controlada dentro de um roteiro que se formou sem que ela se desse conta. Ele a incentivou a procurar rotas que a tornariam mais realizada. Decidiu por largar o emprego, terminar o relacionamento de doze anos e partir para Londres. A escolha pela cidade britânica era reflexo do que havia vivido em São Paulo, um lugar onde muitas culturas diferentes se encontram. Seguiu para vivenciar o desconhecido e descobrir algo sobre si.

Nos sete meses que passou na nublada cidade europeia, estudando inglês e fazendo cursos para seu desenvolvimento profissional, permitiu-se viver novas experiências, essas sim coloridas. O desejo de saborear novas formas de amor veio à tona. Após algumas tentativas frustradas de se relacionar com mulheres, encontrou fortuitamente uma que fez seu coração bater mais forte. A multiplicidade cultural que buscava na metrópole se refletiu no amor. Com uma indiana radicada na capital inglesa iniciou um tenro romance. Mesmo depois da volta para o Brasil, o elo entre as duas perdurou com inúmeras visitas de um lado a outro do oceano.

O encontro ao acaso na Inglaterra transformou-se em uma nova jornada de vida. O amor vingou. Luciana parte em breve, de férias, para Índia para conhecer toda a família da amada. As tradições de casamentos arranjados indianos foi desfeita para dar lugar ao inesperado. Os familiares começam a abraçar as escolhas de sua componente e dar boas vindas à sua parceira brasileira. Enquanto isso, Luciana vai se desfazendo de seus pertences no Brasil para, em alguns meses, emigrar para Londres, iniciando uma trajetória de outra vida possível com sua parceira. De Formiga para Belo Horizonte, de Belo Horizonte para São Paulo e do Brasil para o Mundo. Escolhas ditas aleatórias transformam-se em um quebra-cabeça de uma vida plenamente vivida.

senhora de seu próprio destino

A novela brasileira Senhora do Destino trouxe uma luz no fim do túnel para a vida da moçambicana Lara. Não pela protagonista que se muda do Nordeste para o Rio de Janeiro, procurando uma vida melhor, apesar de ser também uma motivação plausível para justificar sua jornada. A inspiração, na verdade, veio por conta do casal de lésbicas que atravessava os televisores das casas do sudeste do Continente Africano. Pela primeira vez em sua história, Lara se viu representada em um meio de comunicação proeminente. Era um certo alívio que seus conterrâneos em Maputo, capital de Moçambique, pudessem se informar, descobrir que havia outras pessoas no mundo como ela. Sua condição não era algo de outro universo, mas uma concepção de vida possível.

A exportação cultural brasileira, por ter a mesma língua pátria, aproxima os países. A produção global trazia a noção do que ocorria do outro lado do Atlântico. Para Lara, o Brasil se tornou uma esperança de lugar onde pudesse ser ela mesma. O plano intensificou-se quando a maputense percebeu sentir-se no lugar errado com as pessoas erradas. O abandono do pai, por não aceitar sua filha como ela era, foi o estopim de um conflito social. Com o fato de a novela retratar duas mulheres que se relacionavam amorosamente, Lara entendeu que no Brasil, ao menos, se falava sobre o assunto. Em seu país de origem, o assunto era tabu, mantido em silêncio.

A quietude só era quebrada ao som de insultos que ouvia na rua, como ‘fufas’, gritados por conhecidos quando passava em público com outra mulher ao lado. Ou pela forma arbitrária como fora tratada pela polícia em uma interferência parcial. Um julgamento verbal de um policial de como se vestia e portava rendeu um mês na prisão, o que ela considera poder ter sido resolvido com uma multa por infração de trânsito — o verdadeiro delito em questão. As restrições à sua forma de ser apagavam seu sorriso.  

O casal Bárbara e Eleonora, da ficção televisiva, provia um sonho, o de ir para tal país onde Lara pudesse também viver abertamente e com dignidade. Sua missão crescia, mas mantinha-se secreta. A aspiração passou a ser plano, e o plano se concretizou em 2013. Ela construiu condições para lançar-se a um novo rumo. Trabalhou e juntou a quantia necessária para colocar o projeto em prática. Seria ela a personagem de seu próprio roteiro, traçando um destino diferente daquele estabelecido na África.

Desembarcou em Guarulhos como turista que Lara sabia que não era. Pediu para o taxista que a levasse para um hotel no centro da capital. O condutor, perguntando sobre suas origens, percebeu para onde deveria guiá-la. Ele deixou Lara em um hotel no Largo do Paissandu e indicou onde encontrar outros africanos em condições semelhantes, que poderiam ajudá-la. Após acomodar-se, a moçambicana marchou para a Galeria Presidente, mais chamada pelos frequentadores de Galeria dos Africanos, uma espécie de Torre de Babel, onde é ouvida pelos corredores uma nuvem de línguas de todos os cantos de seu continente de origem. Um nativo de Guiné Bissau a indicou a Cáritas, organização não governamental, que acolhe refugiados e explicou como proceder.

A estrangeira, em um mundo mais familiar em que nascera, preencheu as fichas para permanecer em sua nova nação. Encontrou acolhimento na Missão Paz, organização filantrópica que oferece moradia provisória a refugiados recém-chegados. Lá podia dormir, mas os dias eram passados na rua, em que ela logo arrumou trabalho em um hotel. Conseguiu alugar seu próprio quarto onde sentia frio dormindo no chão. Ela sabia, porém, que esse era um percalço inicial, que dias melhores viriam. Dois anos depois de sua chegada a São Paulo, foi convocada pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) para uma entrevista-chave. Pôde falar o porquê de seu refúgio: sua orientação sexual. Com sua história às claras, conseguiu tirar sua carteira de identidade, o Registro Nacional de Estrangeiros (RNE). Apesar da fácil adaptação na maior cidade da América Latina, Lara carrega Moçambique consigo. Faz caril de amendoim, receita da avó, que lembra sua infância no quintal da mãe de sua mãe. Lá era livre, brincava com os primos de jogar futebol ou com carrinhos de ferro. Isso antes de encarar a escola, sentir-se diferente, ser olhada como um ser de outro planeta. O engajamento com a sua própria vida trouxe a vontade de expandir seu conhecimento para além de seu interior. Em saraus que faz parte em São Paulo, Lara recita poemas de Mia Couto, renomado escritor moçambicano. Ajuda também na formação de professores, no que diz respeito à diversidade, inclusão e choque cultural. Com sua voz, transforma a vida de outras pessoas para que se sintam confortáveis em sua própria pele e abraçadas pela sociedade.

um sonho de liberdade

Ramona guarda dinheiro para conquistar sua liberdade. Ela se encontra presa a uma realidade que não se enquadra às suas aspirações. A jovem paraguaia explica que encontraria uma vida mais satisfatória em outro país. A pressão familiar a prende a uma rotina com atuação em Direito, carreira de mais da metade dos seus familiares. O trabalho é a base de seu sustento e a esperança financeira para alavancar uma nova jornada em sua vida. Longe de todos, poderia pensar e decidir por si só.

Começou a faculdade de medicina, sua primeira opção, mas no final do primeiro ano o estresse a afligiu. Faltou apoio emocional para que Ramona continuasse sua vida acadêmica. A depressão assolou sua vida. Largou os estudos e passou quatro meses sem sair da cama. Sem motivação, o tempo evaporava enquanto Ramona devorava tanto comidas diversas quanto conteúdos da Netflix. O fim da prostração se deu devido a uma traição no relacionamento que ainda mantinha. Algo tinha que mudar. Ela se reergueu e passou a frequentar a academia, com o intuito de retomar a forma física anterior.

Quando quis retornar à faculdade, foi impedida pela mãe. A matriarca tinha seus próprios objetivos para a filha. Deixou claro para Ramona que sua única chance havia se esvaído e, dessa vez, teria que seguir passos na advocacia para um futuro certo nos negócios da família. Sem opção, já que contava com o apoio financeiro dos pais, Ramona acatou a decisão da mãe. Ela foi criada para obedecer, ser uma filha exemplar. Seguiu a hereditariedade profissional imposta.

Seu irmão já se aventurou em Londres, trabalhando por lá. Ela vislumbra ter mesma a oportunidade. Em outro país, poderia revelar todo o seu âmago, sem influência dos familiares que confinam seu modo de agir. Se engajasse em uma nova vida em outro lugar, manteria contato, por amor, com sua avó. A anciã é descrita como uma pessoa sensata, reservada, que sabe encaixar as palavras certas na hora certa. Com grande afinidade, há uma intimidade entre as duas que falta com os outros parentes. Na fase mais difícil da sua existência, a avó dizia que a vida não acaba, há de continuar. A jovem mesmo pensa que tudo tem um porquê de existir; são lições que a vida traz.

Já encontrou entusiasmo no trabalho em uma organização não governamental, em que ela formava e capacitava voluntários para construir casas pré-fabricadas para aqueles que não têm um lar. Essa atividade seria mais gratificante, apesar de não ser bem remunerada. Algo encanta a jovem em prover uma vida melhor para uma classe social menos favorecida.

Um dos sonhos de Ramona é visitar Moçambique. O país africano apresenta um mundo à parte, com uma cultura totalmente diferente de sua realidade. Conhecer essa nação banhada pelo Oceano Índico traria brilho ao seu olhar. Ramona nunca foi discriminatória, sempre aberta a pessoas de todos os tipos de status. A diversidade para ela é valorizada, traz a riqueza do que significa ser humano. Esse também é um traço de sua avó que a inspira.

Nos encontros com o sobrinho, é só diversão. Ramona traz em seu interior o contentamento em oferecer memórias gostosas do tempo que eles passam juntos. Além do contato com familiares, há em uma amiga próxima a confiança. A energia dela é apreciada por Ramona que confidencia suas histórias, sonhos e desejos, recebendo palavras de incentivo. Recentemente, também encontrou conforto nos braços de uma mulher. Em termos de relacionamento, ela acredita que o lado feminino pode proporcionar mais empatia em laços amorosos. O melhor está por vir. A essência de Ramona continua crescendo dentro desta mulher em formação, com sonhos de liberdade que fluem em um percurso de afloramento.

facetas internas

Desde criança, Giorgio se interessava pelo sentido da vida. Era o pequeno um curioso sobre os mistérios da existência humana. O menino natural de Padova, norte da Itália, se deparava com uma urgência em desvendar como deveria viver: as nuances e fronteiras do seu existir. A escrita era uma válvula de expressão das emoções que afloravam de dentro do seu corpo. Seus diários exprimiam conflitos internos que foram descobrindo seu caminho através da poesia. Um pouco mais crescido, encontrou também pela voz a manifestação dos seus sentimentos; chegou a ser o vocalista de uma banda de rock.

Seus interesses, passando da infância à adolescência, se tornaram ecléticos. Tanto cursou estudos clássicos no colégio que incluía latim, grego antigo e filosofia como estimava as ciências e matemática. Decidiu estudar economia empresarial enquanto um amigo tentava convencê-lo de que deveria mesmo ingressar em física. Escolheu lidar com uma realidade mais concreta, mais prática da vida. Na universidade em Milão, seguiu em frente, porém muitas vezes com certo desinteresse. Não se apaixonou pelas disciplinas universitárias iniciais, mas o fascinava leituras privadas, especialmente de romances e filosofia.

Pensou em desistir de cursar administração; trocar de área. Arquitetura era uma opção, mesmo que não apresentasse tanta aptidão para o desenho. No entanto, deixou passar a data do exame de admissão. Escolher outro caminho era abandonar o que havia começado; um dilema árduo entre continuar o percurso escolhido e recomeçar do zero. Aspirou também entrar em uma escola de atuação como atividade paralela, uma das numerosas facetas de Giorgio.

Paralelamente, suas questões encontravam amparo nos livros que devorava. Os romances de Hermann Hesse ofereciam uma luz à sua busca. Tanto Narciso e Goldman quanto Sidarta o tocaram. Em O Lobo da Estepe, se deparou com as diferentes personalidades que há dentro de nós; uma espécie de conforto para aquele que leva tantos interesses dentro de si. O romancista juntamente com Friedrich Nietzsche injetavam entusiasmo pela língua alemã. Aprendeu o idioma e vislumbrou mudar-se para a pátria dos seus estimados escritores. Seguiu o conselho dos pais de encontrar um emprego antes de se arriscar em outro país; conseguiu rapidamente trabalhos em contabilidade e para lecionar em universidade, não mais os largando.

Além do alemão, se empenhou em aprender francês, espanhol, português e russo. Giorgio mergulha em cada cultura, ainda levando consigo aquele menino curioso sobre os mistérios da vida. Não estuda a língua somente por livros, aproveita as férias de verão para imergir-se no aprendizado. Já passou temporadas em Barcelona e em Buenos Aires para aperfeiçoar o espanhol; em Salisburgo e Munique para aprimorar o alemão; e em São Petersburgo para praticar o russo; tudo isso narrado em fluente português em São Paulo.

Talvez tenha um traço que se mistura ao de seus pais: ambos italianos que se conheceram na Rússia. A mãe é formada em filosofia russa; o pai em engenharia. Ela teve a oportunidade de trabalhar na embaixada italiana em Moscou. Encarou a decisão entre voltar à sua terra de origem para casar e uma vida livre na capital russa. Decidiu por retornar à Itália e começar uma família. A opção não foi engolida pela avó de Giorgio, mãe de sua mãe, que tentou convencer a filha a se separar e aproveitar a chance na ainda União Soviética.

Sua personalidade mansa tornou Giorgio o confidente da mãe. O garoto, afetivo e observador, ofereceu uma vez a ela sua atenção, que foi bastante apreciada em momento de uma depressão incompreendida que ela vivia. Sua disposição delicada abriu espaço para segredos guardados pela sua genitora. A confissão só veio, no entanto, após a morte do pai, de um infarto fulminante. A mãe revelou ao filho fatos que trouxeram mais compreensão à atmosfera familiar poluída que vivera e explicavam um tanto da melancolia que a mãe carregou durante anos.

Tempos depois foi a vez de Giorgio se defrontar com uma situação de ultimato: casar ou viver só. Após uma noite de pouco sono e muita agitação, decidiu que teria mais paz em solitude do que apostar em uma relação conturbada. Já bastaram as brigas constantes entre seus pais para se arriscar em mar revolto. Nos relacionamentos, prefere uma troca mais tranquila. Giorgio descreve seu amigo mais próximo desde a juventude como diferente de outros homens com que tem até relação sanguínea. Os companheiros de longa data compartilham ideias filosóficas e trocas de experiências de vida em uma presença terna.

A carreira sólida de Giorgio perdura como consultor contábil, auditor de empresas e professor universitário. Na pesquisa, se preocupa não somente com o desempenho financeiro, mas também com o impacto ambiental e social das corporações. Em paralelo, nutre seu trabalho na Lions Club, associação filantrópica em que atua desde a juventude. Encontra Giorgio o equilíbrio entre o lado prático da sua profissão ligada aos negócios, ao mesmo tempo em que vibra em seu interior o interesse pela filosofia, psicologia, budismo e yoga. A consistência profissional e as aventuras de aquisição de conhecimento sobre si e sobre o mundo se mesclam dentro desse italiano de alma sensível.

a outra parte de si

Foi no toque da caixa, tipo de tambor de samba, que ele se tornou participante ativo em seu novo universo tropical quando cravou os pés no Rio de Janeiro e fez da cidade seu novo lar. A ressonância do som das suas baquetas no bloco de carnaval carioca de Santa Teresa, ‘Me Enterra na Quarta’, tiveram o efeito oposto do seu significado no coração desse ítalo-brasileiro: fez com que ele se sentisse, de fato, vivo. Intrigado pela metade de seus genes tupiniquins, Stefano aterrizou no Brasil para encontrar a parte de si que não conhecia tão bem.

Seu pai, italiano, se aventurara por terras brasileiras onde encontrou o amor e a levou consigo para a grande bota europeia. Filho de mãe parintinense, torcedora do Garantido, Stefano assistiu, quando jovem, ao festival folclórico como um observador do mundo de sua genitora que aplaudia o boi identificado pela cor branca e coração vermelho. No entanto, era o rebento um mero turista, um espectador passivo, na festa popular amazonense.

O mergulho na cultura fluminense, em sua nova jornada, aflorou das veias de Stefano uma paixão ímpar. Nasceu uma formação não somente carnavalesco-musical, mas um vínculo com os demais. Sentiu-se rodeado de amigos verdadeiros, abraçado pela comunidade. Ingratamente, uma tuberculose mostrou outro lado da cidade nem tão maravilhosa assim. A doença o conduziu para um momento obscuro, trevas em sua jornada de descobertas. O tratamento médico áspero de um sistema de saúde público pífio fez com que sua decepção o levasse a mudar de ares, buscando outra de suas essências, uma dentre as quais procurava quando atravessou o Oceano Atlântico.

Em São Paulo encontrou uma peça chave do seu quebra-cabeça interior: o sentido do seu trabalho. Não somente o ofício como ganha pão, mas um significado maior para sua existência. Psicólogo clínico, Stefano se interessa pela mente humana e, principalmente, por pessoas. Em um trabalho voluntário em um centro cultural milanês, ele ajudava árabes, nigerianos, e quaisquer imigrantes e refugiados que lá atracavam a aprender sua língua nativa. Na selva de pedras, Stefano colocou em prática a experiência adquirida em lecionar italiano no seu país de origem. No boca a boca, real e virtual, seus alunos se multiplicaram e solidificou sua essência professoral. Stefano vai assim criando bases para a nova realidade que ergue. O futuro traz na psicanálise outra vertente, outro caminho entre os já percorridos; uma imersão em seus interesses: o que constrói um ser humano.

Nascido em Milão, ele trouxe da Itália o amor pelo rubro-negro. Stefano guarda consigo uma camisa de futebol do Milan, presente de seus amigos italianos. Um lembrete de sua fração europeia que portou para o Brasil. Nela há estampado o nome ‘Lapadula’. Apesar de não se tratar de um jogador habilidoso, ele explica ter apreço por esse atacante por sua história de vida, chegando na série A tardiamente e usando da garra e vontade de ganhar como seus trunfos no jogo. O afeto vem também do fato desse jogador ser filho de imigrantes latino-americanos. Stefano tenta encontrar um time brasileiro equivalente para torcer, reviver o que o move no calcio italiano. Se enveredou pelo Palmeiras, mas, antes mesmo de se apaixonar pelo Palestra Itália, veio uma grande desilusão. Felipe Melo fazendo sinal de ‘arminha’ e a torcida do novo presidente eleito Jair Bolsonaro o brocharam. A busca continua.

De toda forma, o correspondente das vivências italianas de Stefano talvez não seja possível ser encontrado no Brasil, mas sim novas paixões que desabrocham na sua experiência local. O ítalo-brasileiro veio buscar algo de sua origem em uma estada temporária, tempo suficiente para tal investigação de sua matriz parcial. O plano inicial de permanecer por alguns meses no hemisfério sul, porém, se transformou em relocação permanente. No Brasil, assim como seu pai, encontrou o amor. Stefano fincou os pés e criou raízes nas terras sul-americanas, explorando àquela parte de si que agora já não é tão desconhecida assim.